sábado, 21 de dezembro de 2013


Minhas frases temem a confissão, só se declaram pra certezas compromissadas. Falo-te, então, rasa. Disfarço meu apego às tuas respostas. Te ouço com indiferença conveniente. Quase distante, mas imensa de presenças e atenções devotadas à tua próxima constatação. Ouço-a. Mas não conta sobre mim. Não nos revela. Te respondo ácida e vaga. Você ri. Mas tudo que digo é triste. Toda vírgula esconde uma palavra que te amou demais. Te nego intenções. Guardo o não-dito.

Outra hora te verbalizo. Te endereço solidão.


Natália Rocha

sábado, 14 de dezembro de 2013


Tua ausência é bruma austera e emudecida nestas tardes avarandadas e mornas. Te percebo angustioso e prudente à espreita das minhas renúncias. Tua ausência resvalando em minhas passadas severas. Caminho. Te recuso. Habitas memórias que não envelhecem. Te tenho imóvel e solene sob as arestas da moldura, dependurado e exausto de passado em paredes claras e descuidadas de suas ranhuras. A casa me saúda a ida. Fecho a porta rangente e temerosa de estar fechada, de velar vazios e promessas findas. Contrario frases de resigno. Caminho. O adiante é turvo de funduras despercebidas. Piso em falso, desacostumo o cotidiano raso e seguro. Me permito a busca. Tateio o  desconhecido ridente. Não fujo. Refugio anseios. Disponho ímpetos. Caminho pro longe, onde o recordável é envolto de distâncias e horas. Adio.

Há dias.


Natália Rocha

terça-feira, 1 de outubro de 2013


Porque são sempre exaustos os dizeres de ruptura, me detenho agora em verbos etéreos, convictos. Permaneço, fico, estarei. Não adiemos as possibilidades dos dias não escritos, permito o nosso começo. Deixemos de ser vislumbre. Eu e minhas projeções fatigadas do seu heroísmo, você com ponderações solenes e vacilantes sobre o risco de amar naquele momento. Aceito as contrariedades, o desacordo, nossa incapacidade pra entrega, tenho licença poética pra nós.


Natália Rocha


Porque sempre tem um gesto meu aludindo a você. Uma palavra prestes a te amar, aturdida, ainda calada, amadurecendo no meu espanto por já serem tão suas. Aguardo. Quero te falar de coisas sérias, num tom polido, indulgente. Contar das intenções todas, dos risos que atendem pelo teu nome, dos versos que te declaram, do nosso intratável. Que todo dia tem uma hora leviana doendo a sua falta, revirando qualquer memória esvoaçante, cálida, onde você se esqueceu. Que teu embaraço é um bom pretexto para que eu vagamente me alcance numa palavra desimportante dessas, que ainda não cuidei do depois, que me ocupo de você acontecendo nas minhas pretensões, em meias palavras. Que te peço que antes do sempre sejamos gerúndio.


Natália Rocha

sexta-feira, 20 de setembro de 2013


Meus olhos vagam pelas paredes e rostos gelados para, oblíquos, descansarem em seus mínimos e impensados gestos. Finjo sobriedade quando você me alcança, rio com uma distração oportuna, enquanto você devolve um riso largo, manso, me prende distante, ameaça minhas perguntas com dispostas inquietações. Volto apressada pros outros, tento vagarosa, alheia, retomar a conversa frívola, cheia de urgências que te adiam por agora. As palavras se esquecem nas vozes muito altas, agudas, pretensiosas. Digo qualquer coisa que concorde com as constatações indecisas e desordenadas. Você do outro lado se confunde com pessoas semelhantes, de espontaneidade ensaiada e cômoda, enquanto detém os olhos no meu desalinho, pensando coisas diversas.  Entre a nossa distância circunda algo de muito pessoal, insólito, difuso, que nos pedem palavras definitivas, irremediáveis. Não ousamos dizê-las. Me escondo suplicante em nosso silêncio, enquanto ocupamos, absortos, frases e fatos que não são nossos.


Natália Rocha