domingo, 22 de abril de 2012


Não, não me faça promessas. De você não quero nada que possa ser quebrado, nenhum lamento choroso. Quero marcas. Memórias, daquelas amarrotadas de eternidade, pesadas, que eu não possa abandonar, mesmo que qualquer dia eu tenha que escondê-las junto com as frases entrecortadas que te guardo prum amanhã. Mesmo que em algum depois você tenha que vestir a nossa história com indiferença, ou mesmo que eu passe com qualquer hora apressada, embargada de desapego, dos seus dias. Eu quero cicatrizes, não tenho medo de senti-las profundas, dolorosas. Que de nós não me caiba nada que passe preguiçosamente com o tempo. Quero que o nosso encontro seja maduro, maus passos não combinam com nossa entrega despida de pudores e dúvidas. Quero que ainda haja nós depois dos anos, de outros toques, dos outros. Quero a gente depois.


|Natália Rocha


sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Sou o que sou, sem mentiras pra mim... pois o fato é que eu sou e não vou me negar."

Raul Seixas



(Faz de conta que hoje é terça)


Chame de fraqueza, mas dizer num timbre de aceitação aquele "não dá mais" me exigiu muita coragem. Ter de mentir sorrisos na tentativa de que qualquer tristeza parecesse só distração, custou a esperança de novas quartas-feiras, violou as possibilidades das manhãs. A terça acontece quieta, sem esperas. Desfaço a cena já gasta da mesmice dos dias e deixo de disfarçar a dor que insiste em deixar os pés pra fora do esconderijo. Assumo minha falta de jeito pro próximo passo. Recomeçar, às vezes, cabe numa desistência, num grito dessas horas inquietas, e cheia de abandonos. Às vezes cabe numa pausa. Parar e me encontrar por aí, com as respostas no colo, ou com outras perguntas e vontades, novos impulsos. Por hoje deixo que a desordem das circunstâncias deite com o céu alaranjado de fim de tarde, já é quase ontem. E ainda é preciso ensaiar mudanças, mesmo que trombando na falta de caminho por trás da porta.


|Natália Rocha

*

Queridos,

Desculpem-me a ausência, não tenho escrito esses dias. É como a Adélia Prado disse certa vez:  "De vez em quando, Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo."

Saudade.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"Porque a espera é também uma espécie de céu, meu bem."

     Katherine Mansfield 


"Um amor vestido de desapego, que não pede pede pra ficar quando aquela pausa entre o sem fim e o era pouco e se acabou faz as malas, dobra a esquina de um recomeço. E que não deite em juras já desbotadas, não se deixa acontecer entre metades. Amor que aceita a despedida. Mas que reze por mais chão, por amanhãs. Que não perca a hora de encurtar saudades, que chegue, acalme e, fique enquanto for, enquanto tiver de ser."


Natália Rocha

sábado, 18 de fevereiro de 2012


E quem me vê apanhando da vida,
Duvida que eu vá revidar
(...)
Eu tenho tanta alegria adiada,
Abafada, quem dera gritar.
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar.



|Chico Buarque, aqui.


Bom Carnaval!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Deixa que eu seja o céu e receba o que seja seu. Anoiteça e amanheça eu."

|Marisa Monte


"É que eu tenho outro alguém. Que canta o meu acaso,  atenta pro meu pranto, me faz cantar também. Que descansa no meu ouvido qualquer sacanagem sincera, mata no peito meu medo de se entregar. Deixa meu nome grudado na língua, me chama, me encontra porque preza o meu riso. Que esquece o juízo em casa e vem sambando distração, se exibindo pro meu rumo. Não toma cuidado, mergulha em linhas fundas, me escreve no que não posso apagar. Diz "pra mim é tudo ou nunca mais". Que é amigo das minhas confusões, me desconcerta. Acerta o passo pra já, tira o peso do relógio no meu pulso, adia esperas. Nossa história acontece na hora marcada. Me declara coragens, não recusa a travessia de agora, caminha, vem junto. E beija meu beijo que pede planos, guarda permanências. É que outro alguém que não se importa de roubar o muito amor que era teu, era."


|Natália Rocha


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Vai, que hoje a lágrima não cai. Sei agora o mal que faz dar amor a quem não ama."

|do hermano, Marcelo Camelo


"Saí me dizendo teu nunca mais, recitando o teu descuido. Fui segurando o choro que embalava a sua falta de amor. Quis voltar - me levar era pesado, até anteontem tudo era teu - mas faltava qualquer uma daquelas frases feitas, uma desculpa, ainda que desanimada, tempo pra cuidar d'outro abandono. E ainda falta. Quis voltar - te levar era doído, ainda ontem prometi ir, tirar um recomeço do bolso, esquecer. Te levar atrasava tudo - mas fui, cambaleando de saudades, calando dores, indecisões. Ainda estou indo e, ainda queria que você fosse. Que nós fossemos. Mas na ida meu amor teve de aprender a ser contido, a colocar um pé atrás daquela vírgula. Te dizer as razões de permanecer no teu abandono já não me cabia mais. Fui. "É, a gente fala". Termino a frase e parece que não dói. Prefiro assim."


|Natália Rocha


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ao fundo ouvia-se a canção "Please send me someone to love".
                                                                                      aqui.


Naquele dia o sol nascera impondo a vida num caminho singular. A terça-feira anunciava uma esperança aos soluços, já desacreditada, quando ele me sorriu um alívio. Seus olhos me convidavam à uma expressão mais leve, sem as tristezas que franziam a testa, nem as desilusões que cerravam os dentes, arranhando o riso. Ele me desembrulhou um bom dia, num timbre sem intenções, como se os medos que eu deixara atrás da porta não tivessem me acompanhado. Ensaiei uma voz com a leveza de quem lê algum verso, mas o choro de anteontem, ainda imenso de lembranças, esbarrou na fala. Senti minha ausência. Ele sentou ao meu lado e distraído deixou cair convicções, uma tranquilidade desarmada, sem espera de certezas. Deixou cair tanto de mim. O olhei querendo estar ali, permanecendo, sem esta tristeza disfarçada, sem as retinas carregadas de traumas, faltas. O olhei como se não fosse descer no próximo ponto, como se estivesse agradecendo o amor que ele, desatento, não me declarou. 

Foi assim que (quase) nos conhecemos.


|Natália Rocha


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Não perca sua fé em mim. E eu vou tentar não perder a fé em você."

|Ray LaMontagne



"Desculpa eu procurar decepções no que que é tão simples e bom, e deixar que meus medos adiem nosso encontro, desanimem os planos, nos desabracem. Desculpa a descrença que tenho na gente. Desculpa eu, moreno, por viver desacreditando, cultivando ausências, recuos, interrompendo seu toque, seus avanços. Desculpa eu antecipar sua ida, ir sem te avisar, e voltar depois falando em saudades, chorando carências.

Desculpa eu não ter dito o quanto gosto da sua vida desfilando na minha."


|Natália Rocha



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"E então, eu virei ser o único que sempre estará ao seu lado."

|Van Morrison


"Apertamos o abraço pra que nossas meias verdades, vontades caibam numa cama de solteiro. Esticamos o riso enquanto o rádio ensaia nossa canção. Sinto o amor de perto quando o sol pinta esta estação nos olhos teus, brincando com meus dramas. Vamos viver de declarar sentimentos, fi(n)car emoções, sem as desconfianças de perguntas aflitas. Vamos viver de agradecer as circunstâncias, perdoar os abandonos, aceitar escolhas. Abriguemos o repouso que tem pra hoje, o descanso que intenciona o silêncio de nossas esperas. Apertamos as ausências de antes pra que a frase mais bonita caiba em sua voz."


|Natália Rocha


*
Dezembro me trouxe de volta pra casa. Saudade imensa de todos.


domingo, 27 de novembro de 2011

"Tem mais alguma coisa pra lavar?" 
Tem, sim: o encardido da alma. Um grão de esperança lava.

|Adélia Prado


"É uma vontade urgente essa minha de alegrar tristezas distraídas, aquele fim não anunciado. Uma crença no rumo que tomei. Tenho conversado com a contramão dos meus medos, não procuro (mais) a rima que falta, deixo a poesia fazer silêncios, à toa. Hoje eu só tenho um sorriso, riso de domingo. Tudo assim, pintado de depois, de cobranças adiadas."


|Natália Rocha



*

Amados, desculpem-me mais e mais uma vez a ausência, mas este mês foi difícil, muito difícil. Vim desculpar meu silêncio que perdurará até meados de dezembro, assim que a vida colocar seus pingos nos i's, eu volto. E volto com a saudade mais bonita.

Meu beijo. Meu muito obrigada!

*

sábado, 19 de novembro de 2011

É duro ter coração mole.


"Por favor, não me aperte tanto assim. 
Tenha cuidado, pega leve. 
Olha onde pisa, isso é meu coração, meu ganha-pão, instrumento de trabalho, meio de vida, profissão, meu arroz com feijão, 
meu passaporte para qualquer parte, para qualquer arte. 

Não machuque esse meu coração. 

Preciso dele para me levar a Marte sem sair do chão. 
Não me aperte, não machuque.

Tome cuidado, eu vivo disso, poesia, sonhos e outras canções. 

Sem emoção morro de fome. 

Sinto muito mas não há nada que eu possa fazer sem coração."


*
|Alice Ruiz